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Veganismo, Feminismo e Luta de Classes

Por Stephanie Mota

 

Uma grande inquietude da minha vida vegana em paralelo com a militância feminista classista era o abismo que parecia haver entre estas questões. A escassez de artigos sobre o tema me trouxeram uma grande inquietude e, após passar bons tempos em busca de materiais que fizessem o debate, reuni os principais pontos neste artigo, onde pretendo trazer à reflexão o que esses três temas tão importantes têm em comum e o quanto são necessários de estarem em evidência se quisermos uma mudança revolucionária na sociedade.

 

alicewalker

 


O mito da necessidade biológica da Carne

Um dos primeiros argumentos que escuto quando digo ser vegana e, portanto, não consumir nada de origem animal é de que a carne é muito importante para meu corpo, sendo uma necessidade intrínseca do humano. Vindo de homens então, é completamente normal escutar: “E a força, como fica?”. Como se o consumo de carne fosse uma necessidade sempre relacionada à força, masculinidade e virilidade.


Essa ideia é reforçada principalmente por grandes produtores de carne. Temos como último exemplo o comercial da Friboi veiculado em grandes canais abertos em horários nobres com uma nutricionista dizendo que carne é essencial. Tal fala repercurtiu entre os vegetarianos, e através de mobilização foi conseguido um pedido de desculpas por parte da nutricionista, porém o pedido teve como máxima repercussão um texto no Portal IG, e outro na Carta Capital.


Em momento algum os órgãos responsáveis cobraram ou lançaram a retratação de modo em que o alcance dela fosse o mesmo alcance da fala da nutricionista sobre a essencialidade do consumo de carne. As críticas à fala do comercial foram vistas quase como um ataque ao prazer e à tradicionalidade de comer carne. Vejam: quanto mais poderosos são os donos dessas empresas, mais eles conseguem transformar o consumo de carne em uma paixão nacional, e mais encorajam as pessoas a silenciarem quem elas percebem como atacantes dessa paixão.


Afinal de contas, quem não admira Tony Ramos e Fátima Bernardes falando sobre o consumo de carne como algo que remete status, fineza e requinte?


Recomendo algumas matérias do Portal Vista-se, onde esse mito danecessidade do homem comer carne para ser forte é completamente derrubado:

(1) Vegano conquista segundo lugar em campeonato de fisiculturismo
(2) Vegano quebra o recorde mundial ao carregar 500kg por 10 metros
(3) MacDanzing - Lutador vegano do UFC

 


Macho que é macho come carne!


Como vimos anteriormente, o consumo de carne é ligado à força e masculinidade como sendo um alimento imprescindível. Neste capítulo do artigo, pretendo ressaltar o quanto o consumo de carne reforça estereótipos mais do que imaginamos.


Um comercial de 2007, da marca de carros Hummer (4), narra a seguinte história: um homem vegano passa suas compras no mercado (tofu, verduras e legumes), enquanto um homem grande e musculoso passa imensas quantidades de carne. Visivelmente o homem vegano fica constrangido diante da masculinidade do consumidor de carne, então, ele vai até uma loja Hummer e compra um carro “potente e robusto”, que de acordo com o comercial “restaura a masculinidade”.


Outro exemplo vem do convívio com meus amigos: na adolescência, ao acompanhá-los em eventos sertanejos, era muito comum que as atrações fossem os tais bois no rolete. Espaços onde homens fortes, com seus cintos de couro e chapeus decowboy destilavam sua mascuilinidade ao comerem o boi ali rodando nos espetos de ferro. Era muito comum frases como: “Só macho come isso aqui!”, ou “Só macho espeta esse boi!”.


No seriado Seinfeld, há um episódio onde o personagem George demonstra claro constrangimento ao esconder de uma moça o fato de não estar comendo carne. Há diversas cenas onde ele tem o receio de não estar sendo “macho” o suficiente.


Na tribo Nuer da África, os homens acreditam que o consumo de ovos pode levá-los a terem características femininas. Até no consumo de alimentos como mingau e sopas, eles exigem de suas mulheres, molhos com base de carne por associarem à falta desta como uma característica de repúdio justamente por serem atribuídos ao feminino.


Voltando à televisão, também há programas como o Man vs. Food, onde o protagonista viaja por diversas cidades dos EUA em busca de desafios gastronômicos: lanches com quilos e mais quilos de carnes e molhos a base de carne. Todo o roteiro do programa é baseado na ideia do macho poderoso, do macho que come quilos de carne em minutos, mostrando como a carne reflete a preferência e potência dos machos.


Portanto, ser homem em nossa cultura, é algo diretamente ligado com a identidade reinvidicada ou negada: o que um macho que é macho faz ou não faz. Um exemplo bem comum que escuto por aí.: um macho de verdade não toma cerveja sem alcool, o macho que é macho toma caracu com ovo. Quando não, homens são insultados com termos: “Tá virando frutinha?”, “Esse é leite com pêra”.


Vamos vendo desde já, indícios de como a cultura é construída pelo acesso ao consumo da carne e pelo controle dos outros corpos.



Feminismo e Veganismo

Tanto o feminismo quanto o veganismo são muitas vezes considerados modismos, portanto, banalizados por grande parte da sociedade e da mídia. Essa banalização fica clara quando, na última Marcha da Maconha deste ano, uma companheira do coletivo foi questionada por um fotógrafo o que era feminismo. Ao explicar, o fotógrafo respondeu: “- Ah sim, entendi! Essa coisa aí de moda né”.


Tanto no consumo de carne como na violência de gênero há a naturalização do fato: o homem estupra porque não consegue viver sem sexo e animais são mortos porque o homem não consegue viver sem carne.


As mulheres são duplamente exploradas no mercado de trabalho: há a desigualdade salarial além do trabalho doméstico não remunerado que as prendem dentro de casa e a distanciam de atividades culturais e políticas. A maioria dos animais que vemos nos mercados e açougues são fêmeas adultas e suas crias. Fêmeas estas também duplamente exploradas vivas e mortas, vivas sendo utilizadas como instrumentos para a produção de leite, e quando esta produção chega a seu fim, mortas para “virarem pedaço de carne”.


Justamente esse termo de “virar pedaço carne”, é recorrente nas falas de mulheres vítimas de assédios e abusos sexuais. Em marchas há uma infinidade de cartazes e palavras de ordem reinvidicandoque não somos pedaços de carne. Mas afinal de contas, o que representa a nossa reinvidicação de não sermos meros pedaços de carne com a luta contra a exploração animal?


A objetificação do outro (seja humano ou animal), permite ao opressor tratar o oprimido como mero objeto. Assim, ao ver o ser inferior como objeto, o opressor o estupra, tanto a mulher através de cenas que não preciso nem descrever, quanto animais através da inseminação artificial nas “fileiras de estupro” como são chamadas. O estupro contra uma mulher lhe nega a liberdade de dizer não, assim como o estupro e o assassinato contra um animal também lhe nega a liberdade de dizer não.


Enquanto somos tratadas e nos sentimos como pedaços de carne – emocionalmente retalhadas e fisicamente violadas, os animais (em maioria as fêmeas e suas crias) são na prática transformados e consumidos em pedaços de carne. Portanto, nos dois casos, um ser vivo que respira é convertido em um objeto morto, objeto de desejo de um opressor.

 


Veganismo e Feminismo devem ser questões de classe

Comecei o artigo citando uma empresa relacionada à venda de carnes, e claro, relacionada à matadouros e frigoríficos. Recomendo o documentário: (5) Carne, Osso que retrata todos os absurdos que envolvem os frigoríficos, tanto no âmbito dos animais, quanto na vida dos trabalhadores e trabalhadoras.


Os matadouros e frigoríficos são espaços onde não vemos e tão pouco escutamos o que acontece lá dentro. Isso faz com que o consumo pareça acontecer sem sofrimento algum, pois o próprio consumo tornou-se objeto do capital, assim como o animal tornou-se “carne”, e não é visto como um animal que sofreu, sangrou e não pôde optar por seu destino. Os matadouros e frigoríficos realizam suas atividades em completo segredo, decidindo o que veremos e escondendo de nós o que eles decidem esconder.


Os trabalhadores tem a sincronia de bailarinos perfeitamente treinados que ficam em silêncio a maior parte do tempo. O único barulho escutado ali são os gritos dos animais e os toques de suas facas.


O homem também é explorado como os porcos e bois dos matadouros e frigoríficos: o que os capitalistas querem de um porco ou de um boi é todo o lucro que ele pode dar, sendo isto também o que os capitalistas querem do trabalhador. O que o porco ou o boi pensam disso e o que eles podem sofrer ou sofrem não é levado em consideração. No documentário indicado acima há inúmeros relatos de trabalhadores que perderam braços, mãos, pernas durante o trabalho e, seguem até hoje sem nenhum tipo de indenização dos matadouros e frigoríficos, sendo assim, também desconsiderados. Os trabalhadores e as trabalhadoras foram foram dispensados como simples pedaços de carne, violentamente destituídos de qualquer forma de sentimento.


Retornando ao capítulo anterior, onde falo sobre o opressor tratar o oprimido como objeto e não como algo vivo que respira, o trabalhador e a trabalhadora dos matadouros e frigoríficos também são tratados como objetos não pensantes, tendo suas necessidades emocionais e físicas completamente ignoradas (como alguns relatam serem pressionados a não irem com frequência ao banheiro por queda de produção).


Esses trabalhadores e trabalhadoras tem que aceitar uma dupla aniquilação de si mesmos: além de precisarem negar suas necessidades pessoais e a si mesmos, também tem que negar a vida dos animais ali presentes. Eles necessitam ver o animal ali vivo como a carne que chega ao nosso prato, embora aqueles animais ainda estejam vivos com seus corações pulsando. Portanto, esses trabalhadores e trabalhadoras precisam estar alineados da sua própria existência e da existência dos animais ali presentes.


Esse processo de ver o outro como algo consumível (afinal comemos animais e os homens comem mulheres), torna-se invisível justamente por ter a visão da burguesia por trás desse processo. A invisibilidade para a sociedade da questão do consumo da carne é a mesma invisibilidade com a questão do estupro e das violências contra a mulher, pois os objetos finais de consumo estão por toda a parte. Seja este um pedaço de carne no açougue, seja este uma mulher andando a noite na rua sozinha.


Seres considerados inferiores pelos homens capitalistas são automaticamente transformados em mercadoria, pois não são suficientementes bons, portanto devem servir como mercadoria de luxo para a classe dominante e mercadoria necessária para a classe explorada. Uma vez que seres vivos são vistos como objetos, e objetos são propriedades de um outro, estes seres perdem sua especifidade. Novamente, a opressão contra os animais se assemelha à opressão contra as mulheres. Ex.: asa de galinha e não dagalinha; “Mulher minha não sai de roupa curta”. Ambos os seres pertencem ao outro e não à eles mesmos.


Portanto, não podemos pensar em um feminismo classista que liberte as mulheres e os trabalhadores da exploração do capitalista, sem pensarmos também na libertação animal. Se há um animal explorado, há tantos outros trabalhadores e trabalhadoras também explorados. A relação do capitalista com os animais e com as mulheres trabalhadoras é o mesmo: seres passíveis e impedidos de decidirem sobre suas próprias vidas. A burguesia é blindada de assistir a esse horror, pois há explorados que ela paga e cria para realizarem e reproduzirem a opressão. Em suma, se você for capaz de justificar a morte de um animal para comer carne, você é capaz de justificar as violações de direitos que acontecem com as mulheres e os trabalhadores. Quanto a mim, não justificarei jamais nem um e nem outro.


(1) http://vista-se.com.br/vegano-conquista-2o-lugar-em-campeonato-de-fisiculturismo-na-bahia/
(2) http://vista-se.com.br/vegano-quebra-o-recorde-mundial-ao-carregar-550-(3) kg-por-10-metros/
(3) http://vista-se.com.br/entrevista-com-mac-danzing-lutador-vegano-do-ufc/
(4) https://www.youtube.com/watch?v=lL4ZkYPLN38
(5) https://www.youtube.com/watch?v=imKw_sbfaf0

 

FONTE: Stephanie Mota (facebook)

 

 

NOTA:

O texto parece inspirado no livro Política Sexual da Carne, de Carol J Adams. É ótimo porque torna esse importante tema de uma forma mais direto ao ponto e de fácil acesso para todos. Mas quem quiser se aprofundar mais, procure o livro que citamos. Veja sobre ele AQUI

em nossa página.

 

Veja também:

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